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“Ninguém passa ileso pelo outro”


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Conheça Juliana de Faria, fundadora da Think Olga e do Estúdio Jules, inspiradora confirmada no Festival.

 

Há dez anos Juliana de Faria fundava a Think Olga, uma das ONGs com maior relevância no tema de direitos das mulheres do país. Criou as campanhas Chega de Fiu Fiu e Primeiro Assédio, com o objetivo de combater o assédio sexual através da mobilização nas redes sociais. É uma das autoras do ebook Meu Corpo Não É Seu, sobre violência de gênero, editado pela Companhia das Letras. 

 

Hoje, está à frente do Estúdio Jules, que trabalha com storytelling e preservação para gerar processos de imaginação. Por seus projetos, foi eleita uma das 8 mulheres inspiradoras do mundo, pela Clinton Foundation e pela revista Cosmopolitan US. Foi finalista do Prêmio Claudia, a maior premiação feminina da América Latina, na categoria Trabalho Social, e do Troféu Mulher Imprensa 2015, na categoria Redes Sociais.

 

Juliana participa do Festival com uma fala sobre o poder das histórias e da imaginação. Nessa entrevista, ela conta como bigornas e desvios fizeram ela chegar nesse lugar permeado de criatividade, tanto em pensamento quanto em ação. 

 

Quando você se percebeu uma pessoa criativa pela primeira vez?

 

Eu acho que eu carrego isso comigo há muito tempo, desde que me entendo por gente mas, pra falar verdade, é recente o entendimento de que pulsa em mim essa criatividade. São como essas coisas que a gente vive, e como você vive acha que é absolutamente normal e todo mundo é igual, até você se deparar com desafios na vida onde você consegue achar caminhos de maneira destoante do que a maioria das pessoas faria. Aí talvez caia essa bigorna na cabeça. 

 

Eu acho que senti isso em 2018, quando eu virei mãe. Comecei a ter provas pra mim mesma sobre esse gosto pela criatividade. E fiz um curso com uma amiga minha que estudou criatividade em Harvard. Ela me falou do conceito do “little c” e do “big C”. Tem a pequena criatividade rotineira, de achar soluções pro dia-a-dia, e que tem muito na cultura brasileira. E tem a grande criatividade que é uma forma de você trazer soluções de maneira mais coletiva, entendendo como você tem uma linha que costura muitas pessoas. E aí me toquei que meu trabalho e meu dia-a-dia perpassam por essas duas maneiras de ser. 

 

Você foi estudar moda e aconteceu um desvio, pode falar um pouco dele?

 

Eu morava em Londres, em um ano em que eu queria absorver bastante conhecimento. Fiz vários cursos e comecei por moda. Quando cheguei lá eu percebi que eu não sabia o básico, como diferenciar tecidos, de algodão prum sintético. E vi que meu interesse estava mais fundado no social. Por que ou não usar minissaia? Qual é o pauzinho que a gente mexe quando a gente muda alguma coisa na nossa na nossa forma de cobrir o corpo? Eu percebi que não tenho a criatividade no desenho, no formato, acho que está mais relacionado a ideias no meu caso, a pensar, refletir, buscar soluções, com questões do ser humano mesmo: que futuro a gente quer criar a partir da maneira em que a gente vive?

 

Como você vê a relação da criatividade com o feminismo?

 

Eu criei a Think Olga em 2013, saí da direção em 2020. Não é fácil apontar os erros e o espaço pra melhora, e acho que ficamos boas nisso. Mas não dá pra parar só aí. A gente precisa ter o exercício de imaginação: o que dá pra construir? Sem imaginar, e até visualizar, como a gente vai chegar? Eu sou uma pessoa que sonha, e sofro de um otimismo real. Esses dez anos de trabalho com direitos das mulheres foram muito pautados por sonho, no sentido de exercício de imaginação: qual é a utopia? Eu acredito que os melhores movimentos de transformação não só dependem, mas nascem da criatividade, de pessoas que conseguem enxergar outro mundo. Não é só sobre jogar esse jogo com as regras que o mundo te deu, mas é pensar em outro jogo, em outras regras. 

 

O que você tem imaginado agora?

 

A gente passou por períodos de pulsão de morte com tudo, com governo, com pandemia, com o enfraquecimento das relações humanas. Eu venho me perguntando: qual seria a linha que voltaria a costurar um tecido social tão esgarçado? Não tenho a resposta, mas tenho batido na tecla de que isso pode se dar por meio das histórias, e é sobre isso que vou falar no Festival Mundial da Criatividade. Contar uma história exige consciência de quem você é e do que você quer, exige coragem, e todos nós somos feitos de histórias. Tenho certeza de que a sua história foi influenciada pelas de outras pessoas, e que outras pessoas se influenciam pela sua. As histórias são carregadas de legado. Ninguém passa ileso pelo outro. Isso entrou muito forte em mim, mudando o meu trabalho que agora é focado em fazer esse acesso à memória, tanto pelo direito de esquecer quanto pela responsabilidade de lembrar e de guardar a memória. A gente não consegue chegar lá sem a ferramenta de onde a gente veio. 

 

E como você tem materializado isso? 

 

Eu tenho o Estúdio Jules - um estúdio criativo que trabalha com storytelling pra várias marcas e projetos. Escrevi um livro infantil e estou escrevendo outro de poesia. E também comecei a desenhar, junto com meu filho.

 

 

Fique de olho na programação para não perder a fala dessa inspiradora no Festival Mundial da Criatividade, em abril.